
Resumo da discussão:
Segundo Telford & Sawrey (1988), o primeiro passo em direção à aceitação de um distúrbio é procurar descobrir quais são as habilidades e as limitações do indivíduo; a partir disso, procura-se estabelecer níveis realistas de aspiração. As avaliações (médicas, psicológicas, fonoaudiológicas, educacionais, etc.) podem indicar, a grosso modo, o que está preservado (as habilidades) e o que está comprometido (as limitações). O estabelecimento de níveis realistas de aspiração é mais complexo, pois não envolve apenas o indivíduo e seu auto-conceito, mas também de sua família, escola e comunidade. Entretanto, o ponto crucial para o estabelecimento de metas realistas é o auto-conceito do próprio indivíduo, que consiste basicamente numa condensação das avaliações que outros indivíduos fazem a seu respeito. Assim, cada um se concebe como adequado ou inadequado conforme as avaliações dos outros.
O fato de que, muitas vezes, a vida dos indivíduos que apresentam algum tipo de limitação se concentrar em torno de suas fraquezas e não de suas habilidades, faz com que seu auto-conceito seja irrealisticamente baixo. Conseqüentemente, seus níveis de aspiração também se apresentam desnecessariamente diminuídos. Em razão disso, o indivíduo se vê encorajado a negar sua limitação, porque, quando toda a sociedade atribui um valor elevado a um estado ideal, acaba se reforçando os comportamentos que ocultam, minimizam ou negam a existência de desvios em relação àquele ideal. Assim, ser "normal" torna-se o padrão de vida. O indivíduo percebe que as recompensas são dadas não àquele que aceita suas limitações, mas àquele que se recusa a aceitá-las ou àquele que luta pelo ideal imposto pela sociedade (Telford & Sawrey, 1988).
Alguns indivíduos com limitações freqüentemente "passam" por normais. Neste caso, o mundo parece estar dividido entre um grupo íntimo (que sabe da limitação) e um outro grupo muito maior (em que se "passa" por normal). Os que estão informados protegem o indivíduo em sua simulação; da mesma maneira, indivíduos que compartilham da mesma condição também podem se ajudar mutuamente na simulação (Telford & Sawrey, 1988). Isso se chama negação por simulação e faz com que o indivíduo tente viver "como se" as limitações não existissem (Fédida, 1984).
Porém, se há limitações, elas não podem ser negadas: uma criança com uma deficiência mental importante, não consegue aprender matemática como uma outra criança que não seja deficiente; da mesma forma, alguém que é gago não consegue falar fluentemente como uma outra pessoa não-gaga. Negar completamente a existência de alguma limitação exige que o indivíduo aja como se a limitação não existisse, o que faz com que ele e os demais indivíduos ao seu redor precisem fingir que é alguém diferente de si mesmo. Transformar-se em um ator, 24 horas por dia, é um trabalho árduo e, mesmo com eterna vigilância, o indivíduo não consegue fugir de suas limitações. O preço da simulação é alto e o esforço é freqüentemente em vão. "Ocultar a incapacidade não a erradica" (Telford & Sawrey, 1988, p. 85). O esforço intenso para ser aceito pelos outros, é negado a si próprio. Disfarçar as limitações passa, muitas vezes, a ser o foco central da vida. Para disfarçar melhor, o indivíduo também pode recorrer a um isolamento social parcial.
É possível a um deficiente auditivo tentar agir como se sua audição fosse normal: ele se esforça para ouvir, observa atentamente rostos e gestos para procurar compreender melhor o que os outros estão falando, desenvolve maneiras de fazer as pessoas repetirem (sem solicitar explicitamente), finge devaneios, enfado ou indiferença (Telford & Sawrey, 1988). Da mesma forma, indivíduos gagos também podem tentar agir como se sua fala fosse normal: ao perceberem que irão bloquear, fingem que estão procurando a palavra exata para dizer; falam mais forte para dissipar a tensão muscular; ao invés de telefonar, enviam e-mails ou deixam recados por escrito.
Aparentemente, uma das "soluções" para os problemas ocasionados pelas limitações socialmente desvalorizadas consiste em diminuir o efeito estigmatizante apontando os defeitos dos "normais" ou insistir que os indivíduos que apresentam aquelas limitações possuem valores positivos especiais. Por exemplo, os deficientes físicos às vezes dizem que o corpo sadio dos "normais" oculta um cérebro vazio; os deficientes visuais às vezes encaram os indivíduos com visão normal como dotadas de olhos, mas incapazes de ver os significados especiais do que vivenciam; os deficientes auditivos dizem que os indivíduos que têm audição normal são surdas aos apelos dos outros. Esta tentativa de transformar o componente estigmatizado num símbolo de superioridade indica, na verdade, uma tentativa de menosprezar o grupo de referência "normal" (Telford & Sawrey, 1988).
Alguns indivíduos com limitações tentam atenuá-las (negação por atenuação [Fédida, 1984]). Nesses casos, geralmente se ouve a expressão "não é grave". Não se faz necessário tornar grave ou dramatizar a situação, mas dizer que "não é grave" é um indício de que não se consegue lidar com as limitações tal como elas se apresentam e, por isso, há a necessidade de diminuí-las.
Também podem ocorrer tentativas de compensar as limitações. Isso se chama negação por compensação (Fédida, 1984). A compensação pode conduzir o indivíduo ao sucesso aparente, mas não ao ajustamento pessoal, porque somente quando ele se sente culpado por suas limitações é que se sente obrigado a compensá-las; somente quando se sente muito mal com relação a algo é que sente necessidade de ser muito bom em outra coisa, a fim de conseguir contrabalancear o lado ruim e provar para si mesmo que tem valor (Telford & Sawrey, 1988).
Pelo exposto até aqui, percebe-se que a negação não é viável. A auto-aceitação é um pré-requisito de saúde mental. Porém, a aceitação das próprias limitações envolve o rebaixamento dos níveis de aspiração e a renúncia a muitos objetivos que teoricamente seriam possíveis a quem não apresentasse tais limitações. Somente aceitando suas limitações, o indivíduo pode enfrentá-las e fazer com que tire o melhor proveito possível de suas capacidades. Telford e Sawrey (1988) dizem que, em sociedades onde o normal é extremamente valorizado, a aceitação das limitações freqüentemente implica a aceitação de um status inferior. Entretanto, entendemos que a aceitação das limitações poderia implicar a imposição de um status inferior, que o indivíduo pode aceitar ou não.
"Quando uma pessoa é capaz de dizer a si mesma e a outrem, ‘Esta é minha limitação; essas coisas eu não posso fazer’, elimina de sua vida muita incerteza e ambigüidade. Fica então livre para estudar as exigências das situações novas ou diferentes, de maneira realista e objetiva, em termos de suas habilidades e incapacidades" (p. 84-5).
A aceitação não implica racionalizar o estado e imaginá-lo como o mais desejável, nem se tornar um indivíduo apático, egocêntrico ou hipocondríaco. As limitações podem ser inconvenientes, mas sem serem degradantes e é possível aprimorar a condição de maneira realista (Telford & Sawrey, 1988).
O indivíduo bem-resolvido procura atividades nas quais são maiores as chances de satisfação, em vez de sentir necessidade de se sair melhor na área das suas limitações (como tentativa de negá-las) ou de ser o melhor em outras áreas (como tentativa de compensá-las). O fato da pessoa tentar, a todo custo, conseguir realizações na área específica da limitação para provar como ela é pouco significativa, mostra, na realidade, como a área da limitação é supervalorizada (Telford & Sawrey, 1988).
Aceitar as limitações também pode ter outro lado: sucumbir a tal ponto diante do estado e se tornar tão pouco realista quanto aquele que opta por negar sua limitação. Alguns exemplos de sucumbir são: resolver que a vida não mais vale a pena, "ficar no seu canto" para não incomodar, mergulhar na auto-piedade e esperar que outros façam o que ele mesmo poderia fazer (Telford & Sawrey, 1988).
A aceitação das limitações pelo indivíduo normal é sempre condicional. Fica implícito que quem apresenta uma limitação deve se abster de cobrar a aceitação incondicional, além do ponto em que o indivíduo normal se sente à vontade (Telford & Sawrey, 1988).
Um indivíduo previamente estigmatizado não alcança aceitação completa como "normal" após a sua reabilitação. A restauração completa das funções anteriormente prejudicadas não resulta na aquisição de um status de ser humano totalmente normal. A mudança de status ocorre, mas no sentido de sair da condição de alguém que era portador de uma limitação para a de alguém com histórico de reabilitação. Isto é, o estigma de ter apresentado uma limitação persiste. Por exemplo, o alcoólatra recuperado é visto como uma pessoa mais vulnerável do que as pessoas que não têm histórico de alcoolismo; demonstrações de raiva, comentários sarcásticos, discussões acaloradas ou uma súbita alteração de humor são percebidos como manifestações de sua natureza alcoólatra básica. Ao passo que, as mesmas reações em um indivíduo não estigmatizado, são vistas como perfeitamente normais e não têm qualquer significação especial (Telford & Sawrey, 1988).
Referências bibliográficas
FÉDIDA, Pierre. (1984). A negação da deficiência. In: Neto, Maria Inácia D’Ávilla. A Negação da Deficiência: a instituição da diversidade . Rio de Janeiro: Achiamé. p. 137-147.
TELFORD, Charles W. & SAWREY, James M. (1988). O Indivíduo Excepcional . 5a ed. Rio de Janeiro: Editora LTC. P. 79-93.