Seção Científica

21 de maio de 2005

O Tratamento do Adulto Gago

Resumo da discussão:

O primeiro ponto abordado no texto é a seguinte questão: por que se verificam tantos fracassos no tratamento do gago adulto, ao passo que havia tanto êxito no tratamento de crianças? O problema é que, muitas vezes, o tratamento no adulto se restringe à aplicação de técnicas (relaxamento, exercícios de vocalização, leituras, etc.). Essas técnicas trabalham o sintoma e não a pessoa, ao passo que, usualmente, com as crianças, se trabalha o indivíduo (auto-estima, confiança, promoção de relacionamentos, etc.) e não o sintoma, que é apenas um aspecto do problema.

Ao se revisar a literatura existente sobre o tratamento da gagueira, foi observada a tendência de uma orientação voltada para o tratamento direto do sintoma (técnicas de reabilitação da fala e no uso de aparelhos e/ou próteses) ou para proporcionar ferramentas que permitam controlar e esconder a gagueira. Entretanto, em ambos os casos trata-se do sintoma, ou seja, o objetivo final é alcançar a fluência na fala do gago, com a qual desaparece o sintoma e se alcança a cura do gago.

Tem-se a impressão de que a perspectiva médica de curar o doente dominou o tratamento da gagueira e que o pensamento subjacente é: o gago é um doente da fala e precisa curar sua doença, o que se consegue somente fazendo desaparecer os sintomas visíveis; que dizer, fazendo desaparecer seus bloqueios de fala. Entretanto, tal perspectiva não leva em conta outros aspectos do problema, talvez menos visíveis, mas, sem dúvida, tão ou mais importante que as repetições, os prolongamentos e as demais alterações na fala dos gagos.

Se a gagueira, como evidenciam-se estudos recentes, tem origem em alterações orgânicas e/ou predisposições genéticas, tais aspectos são mediados e se incrementam por fatores psicossociais presentes na realidade que o gago vivencia. Por essa razão, faz-se necessário direcionar o tratamento do gago tendo-se em mente uma unidade biopsicossocial e não apenas aos sintomas visíveis do problema. Vista desse modo, a gagueira poderia definir-se como interrupções na fluência da fala das pessoas, acompanhada de tensão muscular, medo e estresse, as quais são a expresssão visível da interação de determinados fatores biológicos, psicológicos e sociais que constituem o processo de fala da pessoa gaga. No entanto, na revisão bibliográfica realizada, não foi encontrado nenhum autor que tenha elaborado uma proposta integral de tratamento que relacione estes três fatores.

Em relação aos fatores psicossociais, talvez os dois autores mais representativos sejam Wendell Johnson (1959) e Joseph Sheehan (1970), os quais eram gagos. Johnson (1959) propõe que a gagueira surge "nos ouvidos do ouvinte", visto que no início da aquisição da linguagem oral toda criança apresenta hesitações que são classificadas como gaguejadas. As reações dos adultos e as correções e recomendações que os pais fazem à criança a respeito de sua dificuldade de falar fazem com que ela tome consciência de seu mal falar e concentre sua atenção na forma de falar. Ela trata de antecipar suas possíveis falhas e isso traz como conseqüência o que o autor denomina de "reação antecipatória de esforço". Para Johnson, a gagueira não aparece antes de seu diagnóstico, mas com ele e depois dele.

Van Riper (1971) trata do conceito de si mesmo em gagos e afirma o seguinte: "Nós construímos nossa identidade pessoal internalizando as reações e as avaliações das pessoas que têm um papel importante em nossas vidas (pais, irmãos, cônjuges, amigos, chefes e companheiros de trabalho). O que nós observamos nos olhos dos demais, determina o que acreditamos que somos". Ou seja, pode-se inferir que a gagueira é determinada pelo modo específico de como o gago assume o seu papel de falante em sua relação com o ouvinte.

Assim sendo, evidencia-se a importância na atenção ao gago adulto, de dirigir os esforços terapêuticos para a diminuição do estresse e da ansiedade, de modificar as crenças em relação a seu papel como falante, de melhorar a sua auto-estima e sua auto-imagem, de aumentar a confiança em si mesmo, de diminuir os seus temores e incrementar sua interação vocal e suas relações sociais. Desta forma, é possível conseguir com que o gago se sinta melhor consigo mesmo e que o problema de linguagem deixe de ser o monstro que o atormenta e o persegue constantemente.

Resumindo: por meio da alteração de determinadas falsas crenças dos gagos, é possível fazer com que a gaqueira deixe de ser o eixo central de suas vidas, propiciando a vivência de determinadas situações que antes eram temidas e das quais se furtavam, trazendo, como conseqüência, a diminuição dos bloqueios e melhora da fluência. O resultado esperado é a mudança da consciência do gago, na qual a gagueira não deve ser mais encarada com um empecilho para se alcançar as metas a que se propõe na vida.

Observação: Atualmente, além do tratamento individualizado, existem outras alternativas de ajuda ao gago. Em diferentes países surgiram associações de gagos, grupos de apoio e grupos de discussão por meio da internet ou de e-mail, os quais são espaços onde os gagos podem discutir seus problemas, trocar opiniões, obterem informações, propiciando uma alteração natural de suas falsas crenças.


Referência bibliográfica:

RODRIGUES C., Pedro R. (2001). O tratamento do adulto gago. In: Cunha, Maria Cláudia & Friedman, Silvia (org). Gagueira e Subjetividade: possibilidades de tratamento. Porto Alegre: Artmed Editora.

Datas:

25 jun. 2005
21 mai. 2005
30 abr. 2005
02 abr. 2005
26 fev. 2005
29 jan. 2005

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