
Resumo da discussão:
Aborda a comunicação entre gagos e fluentes, os estereótipos quanto a uma personalidade problemática, desajustada e tensa do indivíduo gago pelos fluentes. Os sentimentos e emoções negativos evocados nas situações de comunicação, quando o gago sente-se frustrado devido à ruptura do fluxo de fala, que lhe reduzem o potencial de expressão, causando tensão, ansiedade e trazendo consciência de exclusão.
Estudos concluem que não há diferenças significantes entre perfis fisiológicos e psicológicos de gagos e não gagos. Porém, a gagueira em adultos caracteriza-se como um distúrbio crônico, por isso permanente e espontaneamente irreversível, assim, necessitando o indivíduo, de apoio especializado para diminuir o impacto em si, na sua família e na sociedade. Desta forma, os procedimentos clínicos adotados em terapia devem ser considerados de controle e aplicados com o objetivo de desenvolver estratégias para reduzir o impacto da gagueira sobre a qualidade de vida.
Verifica-se a importância de conhecer a origem, a distribuição e a caracterização do distúrbio na população, formando sua classificação, suas relações e suas subordinações. Neste momento, é necessário distinguir os sintomas que são próprios da gagueira das disposições pessoais (características de personalidade, idade, estilo de vida). Desta caracterização dependem o tipo e a adequação da intervenção. Mascarada a essência do distúrbio, a intervenção poderá ser inadequada. O tratamento sendo inadequado poderá ser confundida a essência da gagueira, tornando-a intratável. O distúrbio se manifesta no indivíduo e nele sofre modificações, podendo desenvolver novas formas patológicas. Portanto, no indivíduo pode ocorrer justaposições e interações de diferentes distúrbios, causando maiores complicações; por isso, torna-se necessário o claro conhecimento da qualidade da inter-relação distúrbio-indivíduo. Assim sendo, em sua atuação, o profissional deve focar as particularidades.
Aponta as tendências de estudo da gagueira na direção da genética molecular e de recursos das neuroimagem, que mostram que não parece haver diferença acerca da ativação regional cerebral difusa entre gagos e fluentes. Foi considerada uma diferenciação nas atividades localizadas nas regiões pré-motoras, indicando um envolvimento nos estágios de pré-planejamento da produção da fala, o que excluiria a hipótese de que a gagueira seja um distúrbio exclusivamente motor. Os estudos tendem à multidimensionalidade, isto é, existe uma interconexão entre as estruturas do sistema límbico, do córtex pré-frontal, do córtex sensório-motor e motor, levando emoções, memória, ansiedade e medo a terem um efeito na função motora. As características secundárias associadas à gagueira tem sido consideradas comportamentos compensatórios, aprendidos no esforço para evitar os momentos de gagueira.
Conclui que os avanços científicos das últimas décadas confirmam as observações de Van Riper, de que a gagueira é essencialmente um distúrbio neuromotor, cujo núcleo consiste em pequenos lapsos e rupturas na temporalização dos complexos processamentos exigidos para a fala e que sua manifestação são as rupturas automáticas de partes das palavras. A gagueira é determinada pela hereditariedade ou por algum distúrbio cerebral ainda não conhecido. Aqueles que já gaguejaram e recuperaram a fluência espontaneamente, conseguiram-no ou pela maturação cerebral ou por não terem desenvolvido reações de esforço, evitação e medo da comunicação; aqueles que usam o esforço e a evitação, por causa da frustração como comunicadores, provavelmente continuarão a gaguejar durante a vida toda, independentemente do tipo ou de quantos tratamentos diferentes se submetam.
O esforço e a evitação são aprendidos e podem ser modificados; as rupturas automáticas não. A meta da terapia não deve ser a redução da gagueira à taxa zero. Se isso chegar a ser obtido, será temporário, e sua manutenção a longo prazo pode ser considerada impossível. Os gagos que já sabem como obter a fluência precisam aprender a "gaguejar", fácil e brevemente, como qualquer comunicador. Além do que, quando eles descobrem que podem gaguejar sem esforço e sem evitações, sua frustração e os demais sentimentos negativos associados à fala são amainados. Acima de tudo: é possível ter uma vida feliz e útil, mesmo sendo gago.
Referência bibliográfica
ANDRADE, Claudia Regina Furquim de. A gagueira e o processo da comunicação humana. In: LIMONGI, Suelly Cecília Olivan. Fonoaudiologia: informação para formação. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. cap. 4, p. 49-64.