
Resumo da discussão:
Neste grupo de apoio, os participantes colocaram em prática situações que costumam propiciar fluência em pessoas com gagueira do desenvolvimento.
Inicialmente, foi realizada a leitura em uníssono do conto "O Reformador do Mundo", de Monteiro Lobato. A escolha do texto foi motivada pelo fato de um participante, num grupo de apoio anterior, ter relatado que gaguejou em sala de aula, quando criança, ao ler este conto. Todos os participantes do grupo relataram que não sentiram dificuldades em nenhum momento da leitura em uníssono.
Posteriormente, foram postas em prática duas técnicas de dublagem, utilizando-se os versos iniciais do poema O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade. O poema foi escolhido pelo fato de que os portadores de gagueira, de certa forma, também "lutam com as palavras". Primeiramente, duas pessoas do grupo memorizaram os versos e, enquanto uma delas declamava o poema afonicamente, a outra pessoa, acompanhando os movimentos de seus lábios, recitava em voz alta. Os demais participantes leram os versos em voz alta, olhando para os lábios de quem também lia os mesmos versos, porém sem voz. Esta situação não foi tão eficiente para o desaparecimento da gagueira quanto a leitura em uníssono, tendo em vista que alguns participantes relataram algumas ocorrências de gagueira.
Finalizando, foram lidas frases do livro "Quincas Borba", de Machado de Assis (o qual era gago), de várias formas teatrais: alterando-se o timbre da voz, imitando-se o falar de personagens famosos, falando-se com características infantis ou de idosos, representando-se raiva ou tristeza. Em nenhum caso foi constatada gagueira.
Como todos os participantes relataram diminuição significativa ou eliminação da gagueira nas situações propostas, concluímos que todos eram portadores de gagueira do desenvolvimento, porque, se alguém apresentasse gagueira neurogênica ou psicogênica, não teria relatado melhora na fluência nas situações vivenciadas. Por fim, os participantes discutiram por que tais situações melhoram significativamente as manifestações da gagueira do desenvolvimento. Duas explicações alternativas foram colocadas. Segundo a psicologia social, estas situações propiciam a dissolução do paradoxo de tentar falar bem e, conseqüentemente, gaguejar mais. Segundo a neurociência, tais situações ativam áreas encefálicas distintas das ativadas durante a fala espontânea.