Seção Científica

29 de janeiro de 2005

O Aspecto Social da Gagueira

Resumo da discussão:

As autoras consideram que, analisando-se as imagens veiculadas através dos meios de comunicação - especialmente em novelas, comerciais e programas humorísticos - constata-se a existência, na sociedade, de um clichê a respeito da gagueira, predominando uma visão negativa sobre esse distúrbio: o indivíduo gago é invariavelmente apresentado de forma caricata ou como uma pessoa ansiosa, insegura, indefesa e desajeitada.

Essa imagem, que constitui o estereótipo do gago, faz com que a percepção de senso comum veja a gagueira com um distúrbio de comportamento causado por conflitos de cunho emocional, a ser tratado por psicólogos. Segundo as autoras, essa é uma percepção imprecisa, porém é a que ainda prevalece, hoje em dia.

Considerando-se estudos realizados por diversos pesquisadores, as autoras presumem que, embora a gagueira esteja, primariamente, relacionada com alguma anomalia neurológica, e embora os processos emocionais e psicológicos atuem de modo secundário, esses fatores emocionais e psicológicos produzem impacto sobre a anomalia neurológica e influenciam a severidade e variabilidade da gagueira. Sendo assim, crianças neurofisiologicamnete vulneráveis à gagueira estão predispostas a apresentar dificuldades de fala quando conflitos sociais e emoções afetam negativamente seus circuitos neuronais para a atividade de fala.

As incertezas com relação à gagueira deveriam despertar o interesse pela matéria e constituir um estímulo para a realização de novas pesquisas, porém as autoras afirmam que há desinteresse, por parte dos profissionais da área, pela gagueira.

Percebe-se que há uma rejeição velada à gagueira e ao indivíduo gago, e as autoras analisam esse comportamento presumindo que a dificuldade básica de se lidar com a gagueira ou com o indivíduo gago, reside no fato de esse distúrbio de fala expor aspectos vulneráveis que a nossa sociedade, como um todo, rejeita: a perda do controle, a impotência, a falta de segurança, a sensação de incapacidade, ou a falta de agressividade, entre outros.

Ou seja, a gagueira evoca nas pessoas aspectos inconscientes, que elas não valorizam e que, portanto, projetam sobre esse distúrbio de fala. Na verdade, as pessoas mais rejeitam do que se interessam pela gagueira, para não terem que se confrontar com a própria fragilidade interior e com o próprio sentimento de impotência.

O que foi exposto talvez explique uma curiosidade: na área da gagueira encontramos vários pesquisadores e clínicos que também gaguejam.

Enfim, as autoras afirmam que é uma tarefa urgente modificar a percepção negativa que se tem sobre a gagueira e o indivíduo gago, concluindo que não há, no Brasil, nenhum tipo de articulação por parte dos indivíduos gagos, para que mobilizem a atenção da sociedade a seu respeito. O próprio gago tem vergonha de assumir a sua condição e acaba reproduzindo o preconceito social que vive em seu cotidiano. Em outros países, os indivíduos gagos acham-se organizados em grupos e associações. Assim, um claro posicionamento político faz-se necessário entre os indivíduos que gaguejam, de forma a garantir que os seus direitos sejam assegurados, e que a sua dignidade seja preservada.

Referência bibliográfica:
BARBOSA, Lúcia M. G. & CHIARI, Brasília M. Gagueira; Etiologia Prevenção e Tratamento. Carapicuíba: Editora Pró-Fono, 1998.

Datas:

25 jun. 2005
21 mai. 2005
30 abr. 2005
02 abr. 2005
26 fev. 2005
29 jan. 2005

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