Seção Científica

30 de abril de 2005

Transcendendo a Gagueira

Resumo da discussão:

A aceitação das limitações desenvolve-se gradualmente através de experiências vividas ao longo de anos; raramente ela ocorre como um passe de mágica. O viver pode ensinar, pouco a pouco, que a limitação não precisa ser vista como uma tragédia insuportável, mas apenas como uma complicação. Eventualmente, para algumas pessoas, a limitação pode ser vista como um catalisador para o crescimento, como uma contribuição positiva para a vida. Para poder transcender uma limitação, é necessário passar por alguns estágios:

Nível 0: Negação

Quando a pessoa não consegue nem mesmo admitir os fatos.

Nível 1: Reconhecimento dos fatos

A pessoa entende que apresenta uma limitação, sua gravidade, a probabilidade de permanecer com a limitação e a estigmatização social, mas detesta cada parcela disso. Desta forma, a limitação é vista como uma tragédia. A maioria das pessoas está neste nível, mas nem sempre foi assim: a disseminação do conhecimento propiciou o avanço, porque, antigamente, as pessoas se concentravam no nível anterior.

Nível 2: Aceitação das implicações

A pessoa conhece sua limitação e aceita o que é sem recriminação. Seu estilo de vida está adaptado à sua condição. Assim, a limitação é vista como um inconveniente que pode ser controlado. Para chegar até este nível, é necessário aceitar sem rancor as condições que a vida apresenta ao invés de sucumbir ao desânimo, raiva, aversão própria ou outras emoções negativas relacionadas às implicações da limitação. Para poder aproveitar a vida, é necessário aceitar sem rancor o fato de ser portador de uma limitação. Mas não é necessário, nem recomendável, aceitar não trabalhar, não ter amigos, não se divertir. Também não é razoável aceitar um mercado de trabalho secundário, uma vida amorosa frustrante e momentos incertos de satisfação que acontecem segundo os caprichos de outras pessoas. Isso ocorre quando se aceitam definições estereotipadas de "incapacidade" ao invés de se descobrir através da experiência pessoal o que está realmente além do alcance de suas capacidades.

Nível 3: Acolhida da experiência

Poucas pessoas chegam a imaginar este nível e ainda menos pessoas chegam até ele. "Transcender" significa superar-se para além dos limites impostos pela limitação. A transcendência pode envolver a própria limitação, a expectativa social e/ou as reações emocionais.

Relata-se a história de um homem tetraplégico devido a poliomielite, que vivia confinado em uma cadeira de rodas. É muito envolvido com sua profissão e fica totalmente absorvido em suas tarefas. Entretanto, sempre lhe perguntam: "Como você consegue viver em uma cadeira de rodas?" Quando esta pergunta é feita, percebe que sua atenção é redirigida de algo que consegue fazer para algo que não consegue. Para ele, a limitação está em segundo plano até que alguma circunstância a traz de volta para o primeiro plano.

O crescimento pessoal é um processo de vida inteira. A cada semana que passa, mesmo depois de muitos anos sendo portador de uma limitação, a pessoa pode fazer uma nova descoberta ou um novo progresso. "Nós não somos perfeitos; nunca somos o que gostaríamos de ser - por mais belos, bons, bem dotados, serenos ou fortes que demonstramos ser. [Portanto, devemos] fazer o melhor possível com tudo aquilo que temos" (p. 150).

"Aqui a pessoa reconhece que sem a deficiência seria diferente do que é e não tem vontade de ser diferente. Existe a valorização do fato de que a deficiência foi, é e continuará sendo um catalisador do crescimento, desde que lhe seja permitido sê-lo. A deficiência, como todas as outras experiências de vida, é vista como uma oportunidade" (p. 148). A limitação é acolhida como uma oportunidade quase sem paralelo de crescimento, uma oportunidade que pode ser aproveitada ou desperdiçada. Pensar nisso chocaria a maior parte das pessoas com limitações e soaria como uma piada sarcástica. Um conceito relacionado está presente na afirmação de muitos deficientes, que dizem que a deficiência os tornou fortes.

Falar em normalização significa falar em oportunidades, direitos, riscos e responsabilidades iguais. Mas, para muitas pessoas com limitações, lutar pela normalização é lutar por muito pouco. O normal é um ideal maravilhoso para quem é mal-sucedido, mas, para as pessoas que têm capacidades acima da média, a restrição ao normal significa um tédio insuportável. Para as pessoas que apresentam limitações e são mais inteligentes do que a média, a experiência de serem portadoras de uma limitação pode catalisar a aceitação de que também são incomuns em outros aspectos. As primeiras frases da oração do Centro de Recursos Humanos de Long Island, em Nova Iorque, refletem uma meta para além da normalização: "Eu não escolho ser um homem comum. É meu direito ser incomum - se eu puder".

As pessoas que transcenderam suas limitações aprenderam, primeiro, que grandes limitações realmente podem acontecer (não é algo que acontece somente com os outros) e, segundo, que, se aconteceu, está tudo bem.

"As pessoas que sobreviveram, aceitaram e transcenderam a perda dolorosa (...) podem tornar-se capacitadas de maneira singular a crescer além dos limites" (p. 149).

"Ser diferente e desvalorizado, conhecer dores e perdas extremas, encarar a pobreza e até mesmo a morte, força a pessoa a adotar novas perspectivas que de outra forma talvez nunca fossem tentadas" (p. 158).


Referência bibliográfica:

VASH, Carolyn L. (1988). Transcender - A deficiência como experiência de crescimento. In: Enfrentando a Deficiência; a manifestação, a psicologia, a reabilitação. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. p. 143-158.

Datas:

25 jun. 2005
21 mai. 2005
30 abr. 2005
02 abr. 2005
26 fev. 2005
29 jan. 2005

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