
Na fronteira entre as campos psicanalítico e fonoaudiológico estabelece-se um vastíssimo território, um espaço profícuo para reflexões teórico-metodológicas acerca da clínica da linguagem. É nesta perspectiva que este trabalho aborda o sintoma da gagueira, a saber: como uma manifestação na linguagem, dotada de um sentido latente de ordem psíquica inconsciente. Mais: na indissociabilidade da relação corpo-mente, forte pressuposto da teoria psicanalítica, fatores de ordem orgânica (neuro-anatômicos, fisiológicos e genéticos) não ficam excluídos da etiologia dessa formação sintomática.
Contudo, aqui o tema será abordado a partir de fragmentos de casos clínicos, que ilustram cinco proposições teóricas
1. A noção psicanalítica de sintoma nos possibilita sustentar que a gagueira é uma manifestação de natureza neurótica que,
2. Em alguns casos funciona como conversão histérica, em outros como controle obsessivo.
3. A marca corporal incide na região oral, configurando um transtorno na oralidade, em termos pulsionais.
4. A gagueira funciona como um "acting-out", dispositivo de caráter impulsivo do qual o indivíduo não se reconhece como autor.
5. Na gagueira as palavras são "palavra-coisa" , perdendo a função simbólica da "palavra-representação".
Em síntese: os segmentos discursivos onde o sintoma da gagueira se manifesta afetam a escuta terapêutica, sinalizando a clivagem consciente-inconsciente do sujeito e possibilitando aí, interpretações clínicas que consigam ir além das dimensões motora, perceptual e linguística.
Objetivando as conseqüências clínicas dos itens acima referidos, temos respectivamente:
1. Buscar no relato do paciente a história passada da constituição do sintoma (a recordação primária).
2. Na histeria as técnicas corporais podem ser eficientes. Na obsessividade, são mais adequadas as técnicas que conscientizam o ato de fala.
3. Pesquisar a co-ocorrência entre gagueira e transtornos alimentares e entre gagueira e perturbações no processo de aquisição da linguagem oral.
4. O agir ("acting-out") deve ser substituído pela elaboração oral, consciente.
5. "O que é dito" deve prevalecer sobre "como é dito".
Para concluir, retomemos as referências teóricas, tomando a gagueira como um sintoma neurótico (o retorno do recalcado) e o gaguejar como uma atuação psicopatológica (o acting-out) peculiar e específica, que se serve da e incide na linguagem. O que, em última instância, me propus a sugerir foi a indissociabilidade da relação corpo-mente, como pressuposto do método clínico fonoaudiológico. O sintoma da gagueira não é o único, mas é um lugar didaticamente privilegiado para essa reflexão. Isso se dá, ao meu ver, pelo seu indiscutível caráter instável, quase anárquico, que insiste em desafiar e angustiar tanto clientes quanto terapeutas, a saber: um corpo que sofre também pelas vicissitudes do seu inconsciente. Para tal, a Psicanálise não é a única, mas é companheira exemplar.
A duração do processo terapêutico é imprevisível em tal abordagem, centrada nos conteúdos transferenciais mobilizados pelo vínculo terapêutico que acarretam diferentes graus de resistência por parte de cada paciente. Por sua vez, a habilidade (teórico - metodológica) do fonoaudiólogo em produzir efeitos interpretativos no contexto dialógico terapêutico associada a técnicas sensoriais, cinestésicas, cenestésicas e lingüísticas, pode abreviar o tratamento. Contudo, é fundamental que se atente para o fato de que a redução/supressão do sintoma (gagueira) não deve promover deslizamentos sintomáticos que venham a incidir sobre outros níveis do funcionamento da linguagem.
*Maria Claudia Cunha é fonoaudióloga (CRFa 4276/SP), doutora em Psicologia Clínica pela PUC - SP, professora titular do Departamento de Clínica Fonoaudiológica da Faculdade de Fonoaudiologia da PUC - SP, docente e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia da PUC - SP e organizadora e autora de livro, autora de capítulos e artigos científicos.
Nome ou iniciais: FLAVIA
Cidade: cabo frio
Profissao: fonoaudiologa
Pessoa que gagueja: nao
Familiar de pessoa que gagueja: nao
boa tarde.
você poderia dar um exemplo prático de cada técnica mencionada? (sensorial, cinestésico, cenestésico e lingüístico)
obrigada.
Prezada Flávia,
As técnicas referidas são aquelas que, tradicionalmente, compõem o método clínico fonoaudiológico, a saber:
sensoriais: relacionadas às sensações, especialmente à auditiva e à oral, com suas decorrências perceptuais (funcionais ou disfuncionais)
cinestésicas: relativas aos movimentos musculares corporais, especialmente motores orais e diafragmáticos.
cenestésicas: relativas às funções vitais, especialmente respiração.
linguisticas: relativas ao ato de fala, especialmente enunciações (nas dimensões segmentar e suprasegmentar).
Com relação a "exemplos práticos" eles estariam vinculados às especificidades de cada caso clínico. Logo, é impossível, na minha abordagem, generalizá-los.
1 abraço
Claudia
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