
Aos oito anos, idade em que muita criança adora ficar doente para perder aula, Ana Flávia adorava brincar de escolinha. Curiosa, aprendeu a ler muito cedo, e decidiu que seria professora. Só havia um problema: ela gaguejava, principalmente quando precisava mostrar competência. Com a família, não tinha grandes problemas. Hoje, aos 39 anos, Ana dá aulas de português em uma universidade.
A gagueira, pouca gente sabe, é um distúrbio tratável. Tanto que fonoaudiólogos e pessoas que sofrem do problema preferem usar a expressão 'pessoa que gagueja' em vez do termo 'gago'. "Quando você fala gago, tem a impressão de que a pessoa não traz mais nenhum atributo ou capacidade, ou seja, é visto apenas pelo ângulo de sua gagueira", diz Ana Flávia Gerhardt, professora universitária.
O Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica CEFAC calcula que, hoje, 1 milhão e 800 mil brasileiros sofram do distúrbio, caracterizado por interrupções atípicas e involuntárias no fluxo da fala, como repetições, hesitações, bloqueios, prolongamentos e tensões corporais e faciais. O distúrbio é universal, mas acontece em uma proporção de quatro homens para uma mulher. "Não se sabe ao certo por que, mas a mulher apresenta mais habilidades com a linguagem, tanto a escrita quanto a oral", explica a professora do CEFAC e fonoaudióloga Ignês Maia Ribeiro.
Ela diz que existem três tipos de gagueira reconhecidos. O mais comum é a de desenvolvimento, que tem origem na infância e causas desconhecidas e múltiplas. Mais rara, a neurogênica pode ocorrer em qualquer fase da vida e tem origem com algum traumatismo, como o craniano. A mais incomum de todas é a psicogênica, que acontece geralmente na idade adulta, decorrente de trauma psicológico.
Nas novelas, personagens gagos ainda pertencem ao núcleo de humor. Fladson (Marcelo Médici), de Belíssima, por exemplo, só gagueja quando fica descontrolado. Já a gagueira do bandido Vicente (Luiz Henrique Nogueira), de Prova de Amor (Record), é uma espécie de contraponto humorístico às maldades de sua parceira, Elza (Vanessa Gerbelli). De fato, gagos são mesmo tidos como pessoas atrapalhadas pelo senso comum. Mas pode perfeitamente combinar com inteligência. Aristóteles, Isaac Newton, Charles Darwin e Churchill já tiveram seus momentos ruins graças ao problema.
Nos Estados Unidos, celebridades como Julia Roberts e Bruce Willis já participaram da campanha do Dia Internacional de Atenção à Gagueira, que acontece 22 de outubro. Aqui no Brasil, o objetivo do dia foi justamente tentar acabar com a idéia de que os gagos são engraçadinhos. Tanto que o slogan da campanha foi 'Gagueira não tem graça. Tem tratamento.'
"A pessoa que gagueja pode ser, sim, bem-humorada, mas nunca motivo de chacota. Isso é crime", diz Ignês. Ana Flávia, por incrível que pareça, diz que nunca soube de qualquer aluno que a tenha imitado. "Eles estão mais preocupados com o conteúdo do que com a forma da minha fala", diz a professora. Um deles, uma fonoaudióloga, foi quem a ajudou a superar boa parte do problema. Ela percebeu que Ana saía das aulas completamente exaurida. "Eu não respirava direito", conta. Desde então, a professora faz aulas de ioga para conhecer melhor seu próprio ritmo.
Cada caso, no entanto, tem um tratamento adequado. "O importante é saber que existe possibilidade de remissão para todos os casos", explica Ignês.
Boas maneiras para não atrapalhar a fala
A fonoaudióloga Ignês Maia Ribeiro ensina que é importante não finalizar as frases quando a pessoa está gaguejando, por melhor que seja a intenção. "Isso pode mostrar impaciência com a pessoa. É importante respeitar o ritmo de quem tem o problema", alerta. "Eu me sinto frustrada quando terminam a frase por mim", confessa a professora Ana Flávia, que tem o distúrbio.
Além dos sintomas primários (as interrupções na fala e repetições de sílabas, por exemplo), a gagueira pode apresentar outras características. Ignês explica que elas são adquiridas, ou seja, variam de pessoa para pessoa. Aqui, ela lista algumas das principais:
Fonte: Jornal da Tarde
Data: 17/12/2005