
A terapia da gagueira que proponho, utiliza-se do Método Integrativo Existencial, que foi elaborado para o trabalho em diversas áreas da Fonoaudiologia. Ele segue os princípios das Ciências Humanas e enfatiza a visão dialética onde homem-mundo, corpo-mente, físico-psíquico, gago-gagueira são integrados. Incentiva o contato direto com o fenômeno a ser observado ou trabalhado e o uso da reflexão para atingir o conhecimento. Desenvolve o olhar clínico e a escuta, fazendo uma análise hermenêutica dos dados observados. Os aspectos objetivos também são trabalhados, mas aprofunda-se a terapia em direção a aspectos subjetivos e amplia-se o nível da consciência, levando o indivíduo a situar-se melhor na relação consigo mesmo, com a sua gagueira e com os outros.
Algumas considerações são importantes para o entendimento deste ponto de vista sobre a gagueira. Elas são resultado da experiência vivida na clínica fonoaudiológica com pacientes gagos e fundamentam o trabalho na terapia.
Apoiada nessas observações proponho dois focos para a terapia, que recebem prioridades segundo as necessidades de cada paciente e seguem abordagens diferentes.
Um dos focos da terapia direciona-se para a gagueira, o modo disfluente de falar. O trabalho refere-se ao uso atípico de determinados grupos musculares, com tônus alterado, que constitui a gagueira de cada gago e à mudança desta ação muscular, necessária para fala fluente. Trabalha-se o desenvolvimento da consciência corporal como base para o conhecimento da gagueira e o equilíbrio do tônus muscular como base para as mudanças que devem ser efetivadas para a manutenção da fala fluente. São três os objetivos neste foco da terapia:
(1) Ampliação do nível de consciência do corpo e da fala;
(2) Mudança para um tônus equilibrado da musculatura que constitui a gagueira, através da prática de trabalho corporal vivenciado em terapia e diariamente fora da terapia;
(3) Mudança para um uso equilibrado da musculatura que constitui a gagueira através de vivências no ato de fala, com o objetivo de inibir os hábitos musculares que constituem a gagueira e estimular novos hábitos, próprios de uma fala fluente.
O outro foco da terapia direciona-se para o gago, para a pessoa, freqüentemente atingida por sentimentos de rejeição à gagueira, de insatisfação e que, também com freqüência, adota atitudes que indicam dificuldades no modo de ver e de lidar com a gagueira. Sabe-se que existe uma íntima relação entre tensão e emoção e que, portanto, uma emoção alterada pode significar também gagueira alterada. O trabalho neste foco refere-se, então, aos sentimentos e atitudes do gago com relação à sua gagueira. O foco do trabalho está na pessoa, nos seus modos de agir, de pensar e sentir a gagueira. O objetivo é preparar o indivíduo gago para, tomar consciência de suas atitudes e sentimentos que alteram a gagueira; refletir, descobrir e adotar novas atitudes que indiquem equilíbrio no contato com a gagueira. Este é um trabalho verbal que acontece na terapia quando o gago, espontaneamente, relata suas experiências vividas com a gagueira.
A possibilidade de conseguir fala fluente existe em todos os gagos e este sentido de cura é trabalhado em terapia.
O trabalho proposto pode ser feito tanto em sessões individuais como em grupo. As sessões individuais, em geral, duram 45 minutos e acontecem, também mais freqüentemente, duas vezes por semana. A duração da terapia é variável. Cada paciente tem seu tempo, sua facilidade ou dificuldade para assimilar o que é trabalhado, seu grau de envolvimento e disponibilidade para o trabalho, o que é determinante para a evolução do caso.
O Método Integrativo Existencial une pressupostos da Filosofia existencial de Heidegger, da Integração físio-psíquica de Sandor, da Psicologia e da Fonoaudiologia. Ele é fruto de uma experiência vivida na clínica fonoaudiológica e de uma trajetória de estudo, reflexão e trabalho nas referidas áreas.
*Ísis Meira é fonoaudióloga e psicóloga, doutora em Psicologia pela PUC-SP, professora titular da Faculdade de Fonoaudiologia da PUC-SP e organizadora de livro, autora de livro e de capítulos científicos.
Nome ou iniciais: Eleide Gonçalves
Cidade: S. Paulo
Profissão: Servidora pública federal e secretária da Abra Gagueira
Pessoa que gagueja: sim
Familiar de pessoa que gagueja: sim
Prezada Drª Íris,
Gostaria de saber se a possibilidade de conseguir fala fluente pode ser plausível no caso de portador de gagueira severa.
Obrigada!
Eleide,
O que tenho observado na minha experiência clínica é que a aquisição da fluência não depende do grau de severidade da gagueira, nem da idade do gago, mas de sua compreensão do processo terapêutico, de seu envolvimento e dedicação na terapia.
Tenho visto gagos severos que apresentam mudanças significativas com pouco tempo de terapia.
A gagueira severa é mais visível, mais "concreta", incomoda mais, é mais fácil de observar e modificar; o gago se empenha mais para conseguir a mudança, se dedica mais ao processo terapêutico. Isto é determinante.
A gagueira leve é menos perceptível, incomoda menos, em geral o envolvimento do paciente é menor na terapia. Por isso sua evolução pode até ser mais lenta e menor.
Algumas vezes tenho observado que um gago severo evolui de maneira rápida e satisfatória, mas quando a gagueira fica sutil, mais difícil de sentir e mudar e, principalmente, incomoda menos, há uma lentificação na evolução. É preciso, em geral, trabalhar para que ele refine suas percepções e estimulá-lo a continuar o processo e entender que a fluência é possível para todos.
Agradeço o interesse.
Isis
Nome ou iniciais: Sylvan Pereira Barbosa
Cidade: Salvador
Profissão: Estudante
Pessoa que gagueja: nao
Familiar de pessoa que gagueja: nao
Cara professora sou um admirador! A insuficiência determinística para programar o conhecimento, a descoberta e a ação nos leva a encontrar o incerto e o inesperado conforme sua própria citação de Morin. A possibilidade der ser e não ser (Contingência), ou de surgir algo diferente(Emergência)cria talvez um alento, questionando o mundo das certezas. Será que a cristalização do GAGO, quer na terminologia, quer na patologização, quer nas manifestações ideológicas de diversas formas não estaria colaborando para o "paradoxo pragmático" colocando-o como`"o indivduo inabilitado para uma aceitação social plena"(Goffman)?
Sylvan,
Acho que rótulos não deviam ter tanta importância. Não é o uso do rótulo que determina nossa visão de mundo. O que importa, no meu ponto de vista, é a compreensão que um terapeuta deve ter tanto da dificuldade trabalhada, como da pessoa portadora desta dificuldade. Adoto uma abordagem das Ciências Humanas, na qual é fundamental o trabalho da integração homem-mundo, corpo-mente, gago-gagueira. (Não me preocupo com o rótulo e não acho que resolve substituir um rótulo por outro).
Heidegger fala do Ser-com, significando, neste caso, ser-com-os-outros-no-mundo, ser-com-a sua-gagueira. Ele usa também um termo que considero bonito e próprio e que tenho transposto para o meu trabalho. É o "habitar" a gagueira. Deste ponto de vista, é o próprio indivíduo que trabalha sua integração com a sua gagueira e com os outros. Meu trabalho é também acompanha-lo neste processo.
Complementando: não acho que algum de nós posso ter uma "aceitação social plena".
Agradeço o interesse.
Isis
Nome ou iniciais: Magali Ferreira Pancera dos Santos
Cidade: São Paulo
Profissao: Fonoaudióloga
Pessoa que gagueja: nao
Familiar de pessoa que gagueja: nao
Gostaria de saber como a senhora lida com as questões sociais, apelidos pejorativos que tanto desestruturam o indivíduo que gagueja.
Magali,
Vamos ver se eu entendi sua pergunta.
Na minha abordagem terapêutica, existem dois focos distintos: um foco está na gagueira, o modo disfluente de falar, e o outro está no gago, na pessoa. É ela que expressa sentimentos, dificuldades de se relacionar com os outros, com sua gagueira e consigo mesmo. A abordagem neste caso é verbal.
Tenho formação também em psicologia clínica e vejo com clareza as diferentes abordagens, que são utilizadas de acordo com as necessidades do paciente. Quando meu paciente me traz relatos de insatisfação, de frustração ou de qualquer outro sentimento e atitude relacionado à sua gagueira, quando ele me relata dificuldades em lidar com o outro, em correr riscos ou narra qualquer outra experiência vivida que indique esta dificuldade, a escuta e o acolhimento, em primeiro lugar são muito importantes. Além disso, este é o momento adequado para refletir sobre o vivido e descobrir novos caminhos. Sempre espero que estes relatos venham espontaneamente e aproveito a oportunidade para trabalhar a reflexão e a mudança. As questões com o meio social são de responsabilidade do indivíduo que traz a queixa e nunca do outro, por isso assumir responsabilidades por seus sentimentos e atitudes é uma das questões freqüentemente trabalhadas em terapia.
Quero esclarecer que tenho tido muitos pacientes gagos, com excelente atitude em relação à sua gagueira. São pessoas que assumem, enfrentam situações, tomam contato com seus outros "modos de ser", sentem-se realizados profissional e sentimentalmente, têm boa atuação social (alguns são líderes), aceitam a sua gagueira, mas se interessam pela possibilidade de se tornar falantes fluentes. Neste caso o foco da terapia vai apenas para a gagueira, mesmo que continue aberta a possibilidade de escuta, de diálogo e de reflexão sobre o vivido.
Nome ou iniciais: Wladimir Damasceno
Cidade: Natal
Profissao: Estudante
Pessoa que gagueja: sim
Dra. Ísis, já que a senhora tocou no ponto "corpo". Qual a importância, para o gago, de se ter uma completa consciência dos movimentos do seu corpo? Pergunto isso, porque algumas vezes, só depois que gaguejo é que percebo como meu corpo estava alterado. É também interessante saber, o que fazer para ter essa maior consciência?
Wladimir,
Em geral, temos um baixo nível de consciência do nosso corpo. Já ouvi um neurologista dizer que pode acontecer de uma pessoa ter um tumor no cérebro, do tamanho de uma laranja, e não perceber. No consultório tenho vários exemplos da pouca percepção dos pacientes com relação a seu corpo e a sua gagueira. Ninguém tem consciência completa do seu corpo, mas acho que devemos trabalhar para ampliar este nível de consciência e tornar possível a percepção da gagueira que se forma, mesmo antes que ele aconteça.
Se você leu o meu texto pode ver que eu acredito que cada gago, tendo a gagueira como um traço que o constitui, forma em seu corpo a sua gagueira de modo dinâmico e individual. Durante a vida a gagueira vai sendo construída no corpo, num processo que foge ao campo da consciência. Acredito que para trabalhar a "desconstrução" da gagueira e chegar ao uso do que se considera uma fluência normal, é imprescindível desenvolver a consciência do corpo, especificamente, da ação muscular cujo uso atípico constitui a gagueira.
Jung falava que o desenvolvimento da consciência começa com a consciência do corpo. Vários autores que propõem trabalho corporal (Pethö Sandor, Gerda Alexander, Arnold Midell, Moshe Feldenkrais, Stanley Keleman, por exemplo,) concordam com Jung.
Você pode começar a se trabalhar de modo muito simples. Faça uma massagem ou um alongamento na região que você acha que está com o tônus alterado. (Se você não detecta a região, comece pelo pescoço e ombro). De preferência, trabalhe primeiro um lado do corpo. Depois observe e compare o lado trabalhado com o lado não trabalhado. Você vai começar a notar diferenças e entender o que é estar tenso e o que é estar solto. Você vai começar a tomar contato com as reações de seu corpo e dirigir para ele sua consciência que, em geral está voltada para as reações do outro. Esta é uma sugestão.
Agradeço o interesse.
Isis
Nome ou iniciais: Ana Flávia Gerhardt
Cidade: Volta Redonda, RJ
Profissao: Professora
Pessoa que gagueja: sim
Familiar de pessoa que gagueja: sim
Cara Professora,
Gostaria de obter sugestões de atividades paralelas à terapia fonoaudiológica que possam promover o auto-conhecimento corporal, que, junto com o auto-conhecimento existencial, são tão importantes à pessoa que gagueja. Exercícios como os da yoga e a expressão corporal estudada em cursos de teatro podem ajudar na aquisição deste auto-conhecimento?
Obrigada.
Ana Flávia,
Qualquer trabalho corporal sério pode ajudar. É preciso trabalhar a flexibilidade muscular, além da consciência corporal. A prática de esportes, principalmente a natação e até simples caminhadas podem ser muito importantes para o equilíbrio físio-psíquico geral. Alguns pontos, no entanto, devem ser lembrados: o trabalho deve ser sistemático e não deve ser feito de forma mecânica. Isto significa que é importante direcionar a consciência e perceber as reações corporais. Isto lhe dará melhor condição para perceber e trabalhar a sua gagueira. Acredito, no entanto, que deverá ser feito um trabalho específico com a gagueira, com a ajuda de um profissional competente. É preciso reconhecer quais são os grupos musculares cuja ação atípica forma a sua gagueira, trabalhar o equilíbrio destes grupos musculares e o seu uso adequado no ato de fala.
Bom trabalho.
Isis
Nome ou iniciais: WALMIR
Cidade: RIO BONITO DO IGUAÇÚ / PR
Profissao: DESENHISTA
Pessoa que gagueja: nao
Familiar de pessoa que gagueja: sim
Dra. Ísis, tenho um filho com 12 anos de idade e que apresenta aparentemente uma leve gagueira, bom pelo menos penso eu, motivo pela qual não convivo com ele e sempre quando posso estar ao seu lado, tenho também notado que a sua gagueira aumenta cosideravelmente ...
Vou ser direto, há possibilidades de reverter esse quadro e como devo proceder?
Vou dar um exemplo:
de 1 à 10 a sua gagueira é 3...
Aparentemente isso pode não significar nada comparando a outros casos, mas receio que futuramente isso venha a se agravar se não forem tomadas medidas cabíveis e talvez possa trazer algum constrangimento para ele mais tarde, como futuros relacionamentos...
Walmir,
Se o significado que você dá para "reverter o quadro" for "falar fluente", digo que isto é possível. O que não é possível é deixar de ter a tendência para a gagueira, que acredito ser genética. É importante que seu filho perceba a gagueira e queira a mudança. Fale com ele sobre isso de forma simples e clara e diga que é possível tratar para que ele fale fluente. Procure um profissional em sua cidade que possa ajudá-lo. Se não tratada adequadamente, a tendência é que a gagueira piore no passar dos anos, pelo esforço que é feito para evitá-la.
Observe se realmente a gagueira aumenta quando ele está com você. Perceba o contexto, analise como é a sua relação com ele. Qual é o seu nível de exigência? Quais os seus sentimentos diante da gagueira dele?
É importante que os pais tenham uma atitude equilibrada, de aceitação, o que não significa acomodação.
Espero ter ajudado.
Isis
Materiais
Para saber mais sobre gagueira
No Mundo