"Sou gagaaago... mas faço palestras"



Saiba como dois profissionais venceram
sua maior dificuldade para falar em público


Para boa parte dos profissionais, falar em público é tão necessário quanto preocupante. Tem gente que até faz terapia para superar o medo de se expressar na frente de uma platéia. Imagine, então, o desafio que isso representa para um gago! "Na primeira vez em que dei aula, estava tão nervoso que nem consegui dizer 'boa-noite' às pessoas", lembra o paulista Pedro Mandelli, de 53 anos, presidente da Mandelli Consultores Associados, em São Paulo, gago desde criança. A boa notícia é que o medo de Pedro acabou exatamente ali, no momento em que ele encarou a sala lotada de alunas do curso de secretariado, no Senac. Seu jeito natural de se expressar, com ênfase nos gestos e olhares, prendeu a atenção de todas. E a gagueira deixou de ser um problema. "Foi muito estimulante sentir que gostavam do que eu falava", afirma.

Pedro começou a ensinar seguindo a sugestão de uma fonoaudióloga. Além de investir no tratamento com a especialista, ele apostou em cursos de oratória e teatro. Hoje, é um dos dez palestrantes mais requisitados do Brasil e fala para cerca de 15 000 pessoas por ano sobre gestão de empresas e, em particular, de pessoas. Entre seus clientes estão o Unibanco, a Nokia e aTelefônica. Ele também é professor da Fundação Dom Cabral, em Belo Horizonte, uma das principais escolas de negócios do país. Como Pedro, outros profissionais vêm descobrindo que a gagueira não representa um limite para a carreira. Desde que você não a encare assim. "Por pouco eu não desistia da minha vocação, que é lidar com comunicação", diz o engenheiro gaúcho Carlos Alberto Carvalho Filho, de 42 anos, diretor de marketing do Banco Matone, em Porto Alegre. "Mas percebi que, em vez de lutar contra a gagueira, eu tinha de aprender a conviver com ela."

Gago desde os 5 anos de idade, depois de ter sido vítima de um seqüestro relâmpago, o executivo foi uma criança tímida e com baixa estima por causa das brincadeiras dos coleguinhas de escola. No início, o receio de falar era tanto que Carlos decidiu cursar engenharia civil, pois assim não precisaria lidar muito com as pessoas, concentrando-se nos cálculos. Depois de formado e com alguns estágios no currículo, ele viu que não estava feliz na profissão. E decidiu dar uma guinada na carreira, optando por um cargo em que a comunicação era essencial: vendedor.

O primeiro emprego nessa área foi na multinacional americana Xerox. Para treinar seus argumentos de vendas, a primeira visita do dia tinha destino certo: o açougue. "Claro que o açougueiro achava estranho toda manhã encontrar o mesmo gago querendo lhe vender uma impressora. Mas aquela era uma forma de treinar minha habilidade com as palavras e me tornar mais seguro", lembra. A estratégia deu certo. Carlos foi promovido de vendedor a gerente de vendas e ficou nove anos na empresa. "Fiz do limão uma limonada e aprendi que a comunicação não é feita só de palavras, mas também de gestos, olhares, pausas e entonação", diz. Assim como Pedro, ele faz palestras para grandes organizações, com foco em marketing e vendas.

Tanto Carlos como Pedro desenvolveram alguns truques para driblar a gagueira. Uma dica infalível é ler muito e conhecer vários sinônimos para cada termo. "Assim, você pode recorrer a outras opções quando sente dificuldade para pronunciar uma palavra", diz Carlos. Pedro também aposta nesse recurso, junto com outros artifícios. "Durante as apresentações, controlo a gagueira com pausas para a respiração entre uma frase e outra", diz ele. "Mesmo assim, quando gaguejo, brinco com isso e sigo em frente."

COMO DRIBLAR A GAGUEIRA

Alguns truques, como pausa para respirar, facilitam a apresentação em público. A gagueira é uma desordem da fala que se caracteriza por repetições ou prolongamentos de sons, palavras e sentenças. Em alguns casos, há um bloqueio de expressão. Isso é comum na infância, na fase em que o sistema neuromotor amadurece. Metade das crianças supera essa fase, mas, na outra metade, o problema se mantém ou se agrava. "É muito importante que o gago procure um fonoaudiólogo especializado em distúrbios de fluência. Um psicólogo pode até ajudar com relação à auto-estima, mas não melhora a dificuldade com a fala", explica a fonoaudióloga Claudia de Andrade, professora do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Se você é gago, confira algumas dicas para driblar a insegurança e falar em público com sucesso.


Fonte: Você S/A
Edição 87 (outubro de 2005)
Editora Abril

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