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Chame a sua gagueira para dançar! Por Jilvan Oliveira Carmo (BA)
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Título: Chame a sua gagueira para dançar.
Jilvan Oliveira Carmo (Moderador da Abra Gagueira na Bahia)
Em todas as fases da vida, infância, adolescência, adulta e velhice, a pessoa que gagueja sofre preconceitos e estigmas vindos da sociedade que não aceita pessoas diferentes.
A gagueira é um transtorno do neurodesenvolvimento que surge na infância e pode permanecer crônica na fase adulta. A gagueira atravessa vários séculos carregando mitos e a dificuldade em ser aceita como uma neurodiversidade, ou seja, uma forma diferente e diversa do cérebro funcionar durante a fala.
O maior mito ainda é a ideia de que a causa da gagueira é emocional ou psicológica e isso tem sido cada vez mais rebatido pela Fonoaudiologia e pelos estudos da neurociência. A literatura especializada demonstra que a gagueira está no cérebro, porém compreendemos que, para além do transtorno, há um indivíduo que quando exposto a situações de constrangimento e humilhação pode desenvolver questões emocionais e psicológicas ligados a autoestima e ansiedade.
Sobre autoaceitação, é sempre um movimento difícil explicar para nós mesmos que o que temos é a gagueira, que é só isso. Uma tarefa nada fácil para a maioria das pessoas, com deficiência ou não, com neurodiversidade ou não, é sempre ter que se lembrar que não tem um ser humano igual ao outro, de modo que a autoaceitação deveria ser inerente para qualquer pessoa.
A busca pela fluência não deve ser uma meta, pois a fluência é um processo. Definimos processo como sendo algo cíclico e variável, que para cada corpo e situação pode acontecer de forma diferente, por isso que a pessoa que gagueja não tem como fazer fonoterapia por inteligência artificial ou tutorial no youtube. O fonoaudiólogo precisa “olhar no olho” de quem gagueja, perceber os seus padrões de fala e comportamento frente à gagueira, para então traçar um plano individual que faça sentido para cada caso.
A gagueira, apesar de ter manifestações específicas e comuns a todos que a apresentam, é única porque muito além do transtorno existe uma pessoa singular. O papel do fonoaudiólogo não é curar, mas levar a pessoa que gagueja a se conhecer melhor enquanto comunicador, conhecer o seu ritmo de fala, perceber como pode falar mais confortável. A fluência não deve ser uma meta, mas sim a busca pelo bem-estar enquanto comunicador. O fonoaudiólogo não buscará eliminar uma característica que é a forma de se falar, mas ajudará quem gagueja a ressignificar a gagueira e compreender que ser um bom comunicador vai muito além da fluência.
Os seres humanos desenvolvem a capacidade da alteridade, que é compreender o outro como diferente e conseguir se colocar no lugar do outro e dialogar com essa diferença. Caso o receptor, quem está ouvindo, não tenha desenvolvido essa capacidade, o problema é de quem? Devemos aprender a colocar a responsabilidade e o constrangimento a quem de fato compete isso. Comunicar-se de forma responsável, honesta e respeitosa nunca deveria ser um problema. O interlocutor, quem está falando, tem o dever de expor o que quer dizer de forma que a outra pessoa compreenda, se certificando de passar o conteúdo de forma coesa; e o receptor tem o dever de ouvir atentamente e se certificar que compreendeu o que o outro quis dizer, interpretando e acolhendo o como foi dito. Será que é tão difícil? Será que é tão difícil a pessoa considerar o conteúdo e não a forma?
Que cada pessoa é diferente, já ouvimos falar. De fato, cada indivíduo é singular, tem suas particularidades, suas peculiaridades, seus hobbys preferidos, suas feridas específicas, cada ser humano é único. Porém na sua singularidade, também tem a pluralidade, pois, mesmo sendo diferente da maioria das pessoas em relação à fala, mesmo sendo você mesmo, sempre irá existir alguém semelhante a você. Você não está sozinho. Enxergue que a sua diferença e singularidade o torna igual a outras pessoas como você. Para cada diferença que temos, existe um coletivo de pessoas em algum lugar que podem ser atravessadas pelas mesmas situações. Igual em tudo nunca terá, mas podemos ter semelhanças em alguns aspectos da nossa vida e nos apoiar mutuamente. A sua singularidade se faz plural!
Precisamos falar também sobre quando tentamos mudar os nossos comportamentos e sentimentos a todo custo sem parar para acolhê-los. Isso pode ser compreendido pelo que chamamos na Psicologia como paradoxo da mudança. Paradoxo é quando algo acontece indo contra o fluxo do que se espera. Sendo assim, quando deslocamos o esforço da mudança para a aceitação, é assim que temos a oportunidade verdadeira da mudança, com o foco na aceitação e no acolhimento de ser quem é. Já dizia Carl Roger “O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como eu sou, então eu mudo.”
O processo de aceitação é individual e deve ser construído de forma individual, apesar de que compartilhar e pedir ajuda para outras pessoas e profissionais seja de suma importância. A humildade faz-se necessária para construir uma rede de heterossuporte e fortalecer o autossuporte, o que significa dizer que se apoiar em outras pessoas pode fortalecer o apoio dentro de si mesmo.
Para a autoaceitação não é necessário ditar passos e regras para alguém, pois isso vai contra a correnteza para acolher a própria autenticidade e o processo de significação que cada um desenvolveu ao longo da sua história de vida. Têm pessoas que gostam de se identificar como pessoas que gaguejam, outras não, têm pessoas que gostam de fazer fonoterapia de forma contínua e ininterrupta, outras gostam da fonoterapia esporádica e há aquelas que não gostam de fazer a fonoterapia; têm pessoas que gostam de falar em público, outras pessoas são mais tímidas e reservadas; têm pessoas que se sentem melhores quando já se apresentam como pessoas que gaguejam, outras não gostam de falar e preferem que isso não seja falado no início. Nenhum desses exemplos está errado ou deve ser julgado, pois se referem à escolha que cada indivíduo utiliza para se sentir melhor e se regular. Todas as formas são válidas, se prometem bem estar e afirmam a autenticidade.
Por fim, nas fantasias das crianças sempre existem os medos, e popularmente chamamos esses medos de “bicho papão”, ou então “o bicho debaixo da cama” que ficam no lugar mais escuro do quarto. Eles parecem insuperáveis a ponto de nos fazer evitar o contato. Por vezes, temos a gagueira neste lugar e buscamos evitar contato com ela, tentamos escondê-la, evitamos falar para não sentir o medo que ela representa. É preciso racionalizar um pouco esse medo para que seja possível ir compreendendo onde que ele se fortifica e ir conhecendo quem é você, com a característica singular de ser uma pessoa que gagueja.
Lembre-se ainda que o que importa não é a quantidade do que se diz, mas sim a qualidade do conteúdo. A gagueira não te limita em nada e você poderá ser o que quiser ser. Sendo assim, convido você mesmo a se acolher primeiro, para que possa ensinar os outros como quer ser acolhido. Prestemos mais atenção no que fazemos e não em como fazemos; que prestemos atenção no que se é falado, no conteúdo, e não em como e na forma que se fala.
Então, o que falta para você chamar a sua gagueira para dançar? Como é olhar para debaixo da cama e conversar com a sua gagueira? Como você pode se entender com a sua neurodiversidade?
